‎"[...] E tu serás o adjetivo dessas orações opacas (...). E ser isso é o principal, porque o adjetivo é a alma do idioma, a sua porção idealista e metafísica. O substantivo é a realidade nua e crua, é o naturalismo do vocabulário." #teoriadomedalhao #machado

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Mia Couto [2]

"Murar o medo"


O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território. O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência. O preço dessa narrativa de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades.

Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos. A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente.

E porque se tratam de entidades demoníacas, não bastam os seculares meios de governação. Precisamos de investimento divino, precisamos de intervenção de poderes que estão para além da força humana. O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder. Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade.

Para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas como por exemplo estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilhão e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia, são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadafi? Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça? Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes.

Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo. Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que sobre uma grande parte de nosso planeta pesa uma condenação antecipada pelo fato simples de serem mulheres. A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo.

Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética e nem de legalidade. É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar. Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo, muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Citarei Eduardo Galeano a cerca disto, que é o medo global: “Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quando não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras. E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe! 

Retirado de  

Mia Couto [1]

Estou lendo o livro "O fio das missangas", do Mia Couto, e estou enamorada pela escrita desse cara. Confesso que não o tinha lido anteriormente, sabia algo "de ouvido", mas eis que a oportunidade da vida me coloca diante desse livro. Estou amando. Uma das significativas descobertas, e certamente aprendizagem, desse ano. Dos que tenha lido até agora, fiquei pensando eternamente nos contos "O Cesto" e "Inundação", apesar de que "A saia almarrotada" tenha me deixado extremamente reflexiva. [continua]

Capa do livro, lançado pela Companhia das Letras.


"A missanga, todas a veem.
      Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas.
      Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo."

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Quando o "isso" também é problema meu!

Essa semana o assunto se refere à política: julgamento do Mensalão. O mais engraçado é que talvez quem leia esse blog - se é que alguém o leia - irá dizer: "só se fala nisso! De novo?!"
Aí pergunto: e qual é seu posicionamento sobre isso? O que você tem a dizer sobre a real situação atual no sistema político Brasileiro, do teu país?
Sabemos que, na maioria, não passa de duas linhas. Argumentos consolidados, baseados em fatos históricos atuais e/ou passados, além de uma contextualização teórica baseada na Constituição Federal já podem ser um bom início. "Oi? Tá louca?" 
Mas é assim que ELES falam, é com frases de efeito e informações veladas, o tal "jogo das palavras" que eles te iludem, te passam a perna, roubam teu dinheiro, e tu sorri, aplaudindo uma miséria de medalha olímpica, porque nem em esporte de qualidade o teu país investe nos competidores. É não se importando com política que tu representa a tua vontade de continuar compactuando com essa palhaçada toda, é falando e falando de novela no facebook, é compartilhando imagem que não te leva a nada, é "chingando-muito-no-twitter" que tu vai continuar mostrando a tua alienação. Ah, te ofendi? É pra ofender mesmo, ou melhor, é pra te acordar, te mostrar que a vida não é crepúsculo, porque, afinal, até o vampirinho leva chifre, meus queridos. E ao invés da gente discutir se a guria estava ou não certa, discutamos sobre nossos valores frívolos, de nossos falsos moralismos, de nosso teto de vidro, de nossa falsa criticidade. Falemos de nossos preconceitos, mas de respeito, e, enfim, de achar soluções claras para que as coisas comecem a fazer sentido e andar como deve andar. Isso depende da gente, DE TODOS. Se eu fechar os olhos para o que acontece com os outros, eu também não tenho direito de criticar depois. É não só uma questão consciente, mas, principalmente, de bom senso.

Conversando com uma amiga hoje, refletimos que não temos que bancar o intelectual e o crítico o tempo todo, todos os dias. Equilíbrio é necessário para levarmos nossos dias. Não sou sempre a sabedora de tudo, vejo novela, site de fofoca, redes sociais, vejo filme de comédia romântica, faço dieta e cuido da casa. Sou uma pessoa normal, erro, tenho defeitos, mas busco acertar, e não me conformar com uma falsa comodidade barata que nos vendem todos os dias. Mas existe momentos que sei da minha responsabilidade de ser humano, PENSANTE, e crítica do que acontece ao meu redor. Deixar com que as coisas sigam nessa "pseudo-vida" é compactuar com essas vergonhas que ocorrem todos os dias no nosso País, nosso Estado, e deixar que elas continuem, que elas sejam destaque em noticiários, que a violência siga nos amedrontando, que a corrupção continue dando vantagem a quem não mereça, que a gente continue trabalhando honestamente para um salário mínimo, trabalhando meses para pagar imposto, e sem um mínimo de educação e de saúde de qualidade, sabendo que as melhores vagas sejam destinadas aos "QI's": "quem indique". Gente, crítico não é fingir que sabe: é saber e falar, e discutir, e expressar. E aprender. O que realmente vale a pena. Deixando o egocentrismo de lado. E a ignorância e a alienação também. Afinal, são todos esses aqui que nos representa?